Olive 10Set11 | 0

Levantam. A caminho da porta, ela decide. Entope-se de coragem barata de ar condicionado. “Posso fazer-te uma pergunta?”. Fecha a porta com tal leveza que ouve o trinco beijar o encaixe. Inspira. “Não quero que me interpretes mal, mas a dúvida mata-me. Consome-me. Já não dá.”. Sente a respiração parar contra-vontade. A pulsação acelera tanto que os ouvidos ensurdecem, a cabeça voa de tão leve. As gotas de suor criam-se nos lugares menos convenientes. O olhar foge, a mão toca-lhe no ombro. “Não perguntes.”- “Não sabes o que vou perguntar. E eu tenho de saber.” – “Sei. Não perguntes, sabes a resposta. Vamos deixar as coisas assim.” Ela força-se a olhar para os pés, não quer ficar zonza. Usa a mão, que não lhe largou o ombro, e empurra. Sente as costas a encostar. Junta a mão à cintura, tão perto que as ancas tocam. Aproxima a cara até sentir a respiração nos lábios. Até respirar o ar partilhado, húmido. Sente-se um toque que só não é físico. A saliva pede companhia, as mãos tremem. A cabeça, vazia de razão. A garganta, a transbordar de vontade. Quer engolir, em seco. As pupilas dilatam, a nuca arrepia. O lábio de cima toca no de baixo. Um rasar tão leve, inseguro. O de baixo no de cima. Arriscam um pouco mais de contacto, os olhos já tinham fechado há uma década atrás. As cabeças inclinam, cada uma à sua direita. Suave toque molhado, um travo a café. A mão sobe, lentamente, toca-lhe no queixo. Puxa para si. A insegurança ficou na anca, perdeu-se num beijo em que o tempo não existe. “Viste, tinhas a resposta na ponta da língua. E agora?”.




